Muito se fala, mas poucos são os estudos confiáveis hoje. Centro público americano financiará testes mais rigorosos.
Estima-se que mais de 80 milhões de adultos nos Estados Unidos façam uso de algum tipo de medicina alternativa, de ervas a super vitaminas, de ioga a acupunctura. Mas apesar de haver muitos defensores desses tratamentos, a evidência científica quase sempre fica a dever: estudos e experiências clínicas, quando existem, podem ser de má qualidade e muito limitados para emitir conclusões confiáveis.
Agora o governo federal está a trabalhar para elevar os padrões de evidências, tendo como objectivo distinguir entre o que é eficaz, inútil e prejudicial ou até mesmo perigoso.
"A pesquisa tem feito progressos constantes", disse Josephine P. Briggs, directora do Centro Nacional para Medicina Complementar e Alternativa, uma divisão dos NIH (Institutos Nacionais de Saúde dos EUA). "É razoavelmente novo que métodos rigorosos estejam a ser usados para estudar essas práticas de saúde."
O perigo do exagero A necessidade de que haja rigor pode ser impressionante. Por exemplo, um estudo do ano de 2008 feito em Harvard identificou 181 artigos de pesquisa sobre terapia por ioga relatando que ela poderia ser usada para tratar um leque impressionante de enfermidades – incluindo asma, doenças cardíacas, hipertensão, depressão, dor nas costas, bronquite, diabetes, artrite, insónia, doenças pulmonares e pressão alta.
Descobriu-se, no entanto, que apenas 40% dos estudos usou testes randómicos controlados – a forma usual de estabelecer conhecimentos confiáveis sobre se determinada droga, dieta ou outro tipo de intervenção é realmente segura e eficaz. Nesses testes, cientistas designam pacientes aleatoriamente a tratamentos ou grupos de controlo com o objectivo de eliminar a influência de decisões clínicas e de pacientes.
Sat Bir S. Khals, autor do estudo e pesquisador do sono na Escola Médica de Harvard, disse que uma complicação a mais era que "a grande maioria desses estudos é pequena", com cerca de 30 pacientes ou menos para cada segmento do teste randómico. Quanto menor o tamanho da amostra, ele alertou, maior o risco de erros, incluindo resultados falso-positivos e falso-negativos.
Críticos da medicina alternativa aproveitam-se dessa fraqueza. R. Barker Bausell, metodologista de pesquisa sénior da Universidade de Maryland e autor de "Snacke Oil Science" (Oxford, 2007), afirma que estudos em pequena escala geralmente têm um conflito de interesses implícito: precisam de mostrar resultados positivos para receberem incentivos para pesquisas mais amplas.
"Tudo isso conspira em favor de falsos positivos", disse Bausell numa entrevista. "Isso faz com que os resultados sejam extremamente questionáveis."
Solução alternativa É esse tipo de névoa que Briggs e o Centro Nacional para Medicina Complementar e Alternativa, com uma verba de US$ 112 milhões este ano, estão a tentar eliminar. Os seus testes tendem a ser mais longos e mais amplos. E se um tratamento se mostra promissor, o centro estende os testes para muitos centros, diminuindo assim as hipóteses de falso-positivos e influência do pesquisador.
Por exemplo, o centro está a conduzir um amplo estudo para ver se extractos da planta do ginkgo biloba podem desacelerar a progressão de Alzheimer. Os testes clínicos envolvem centros na Califórnia, Maryland, Carolina do Norte e Pensilvânia. Foram recrutados mais de 3 mil pacientes, todos eles com mais de 75 anos. O estudo deve ser concluído no próximo ano.
Outro grande estudo envolveu 570 participantes para ver se a acupunctura oferecia alívio à dor de coluna e melhorava as funções para pessoas com osteoartrite no joelho. Em 2004, os resultados foram positivos. Brian M. Berman, director do estudo e professor de medicina da Universidade de Maryland, disse que a pesquisa "estabelece que a acupunctura é um complemento eficaz para o tratamento convencional da artrite."
Numa entrevista, Briggs afirmou que outra boa maneira de melhorar os testes clínicos é garantir uniformidade do produto, especialmente tratamentos fitoterápicos. "Achamos que realmente influenciamos os padrões", ele disse.
Ao longo dos anos, laboratórios descobriram que até 75% das amostras de ginkgo biloba não continham os níveis informados do ingrediente activo. Cientistas que realizam testes clínicos são incentivados a reportar esse tipo de inconsistência.
Briggs disse que esses investimentos provavelmente se pagariam no futuro por documentar benefícios reais de pelo menos alguns tratamentos não-convencionais. "Acredito que à medida que a sensibilidade da nossa avaliação melhora, vamos fazer um trabalho melhor em detectar esses efeitos modestos, porém importantes para a prevenção e a cura de doenças."
Uma questão em aberto é quão longe essa nova onda irá. Os altos custos de bons testes clínicos, que podem chegar a milhões de dólares, significam que relativamente poucos são feitos no campo de terapias alternativas e relativamente poucas das afirmações extravagantes em relação a essas terapias são realmente investigadas de perto.
"Em uma época de verbas apertadas, isso vai piorar ainda mais", disse Khalsa, de Harvard, que conduz testes clínicos para descobrir se o ioga pode combater a insónia. "É um grande problema. Esses incentivos financeiros ainda são muito difíceis de obter e a ênfase ainda é dada à medicina convencional, à pílula mágica ou procedimentos que eliminem todas essas doenças".
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